MANIFESTO NEODY
Terras raras, inteligência artificial e a próxima fronteira da competitividade brasileira
O Brasil possui recursos estratégicos. A questão é quanto conhecimento conseguirá construir sobre eles.
O país reúne uma das maiores reservas conhecidas de terras raras do mundo enquanto inteligência artificial, dados e automação modificam a forma como empresas competem. Entre o recurso e o desenvolvimento existe uma variável decisiva: conhecimento capaz de transformar matéria, informação e tecnologia em valor.

Há momentos em que uma transformação tecnológica parece distante até começar a alterar silenciosamente empresas, mercados e cadeias produtivas.
A internet reduziu drasticamente o custo de distribuir informação. A digitalização modificou serviços financeiros, comércio e comunicação. O comércio eletrônico alterou a relação entre localização, estoque, conveniência e acesso ao consumidor.
Agora, inteligência artificial amplia novamente o que empresas conseguem pesquisar, analisar, automatizar e produzir. Para o Brasil, essa transformação ocorre ao mesmo tempo em que outra discussão ganha importância econômica: minerais críticos e terras raras.
O país está dos dois lados dessa história. Possui recursos minerais estratégicos, uma grande economia, indústria, universidades, centros de pesquisa, empresários e profissionais capazes de produzir conhecimento. E possui milhões de empresas tentando entender mercados cada vez mais complexos.
A questão central não é apenas o que o Brasil possui. É quanto conhecimento será capaz de incorporar ao que possui.
O Brasil está entre os maiores detentores de reservas de terras raras
O Mineral Commodity Summaries 2026, do U.S. Geological Survey, estima as reservas brasileiras de terras raras em aproximadamente 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras equivalentes. A China aparece com 44 milhões. Entre os países com reservas nacionais quantificadas na tabela do USGS, o Brasil aparece em segundo lugar.
A produção conta outra história. Para 2025, o USGS estimou produção brasileira de cerca de 2 mil toneladas, diante de 270 mil toneladas chinesas e produção mundial estimada em 390 mil toneladas. Reservas e produção medem coisas diferentes, mas a distância evidencia que disponibilidade geológica não se converte automaticamente em capacidade industrial.
Mineração representa apenas o início da cadeia. Entre uma jazida e um componente tecnológico existem beneficiamento, processamento químico, separação de elementos, refino, produção de metais, ligas, pós magnéticos e fabricação de ímãs. A Agência Internacional de Energia descreve essa sucessão como uma cadeia tecnicamente exigente, na qual diferentes etapas acrescentam valor.
O valor está também no que acontece depois da extração
Em 2024, segundo a IEA, a China respondeu por aproximadamente 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em ímãs. Sua participação chegou a 91% no refino e a aproximadamente 94% na produção de ímãs permanentes sinterizados. Esses percentuais se referem a etapas e universos distintos da cadeia.
Ter acesso à matéria não equivale a dominar sua cadeia de valor. Conhecimento químico, engenharia, processamento, escala industrial, máquinas, formação profissional, pesquisa e propriedade intelectual também determinam a capacidade de transformar um recurso em produto competitivo.
Em setembro de 2026, a Lei nº 15.506 instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação incorpora pesquisa, beneficiamento, transformação mineral e agregação de valor à agenda institucional brasileira. O resultado econômico dependerá de fatores que vão muito além da existência das reservas.
Quatro elementos ajudam a explicar por quê
Existem 17 elementos classificados como terras raras. Para a cadeia dos ímãs permanentes de alto desempenho, quatro merecem atenção especial: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A IEA acompanha justamente esses quatro elementos ao analisar as terras raras usadas em ímãs.
Neodímio e praseodímio têm papel central nos ímãs de alto desempenho; disprósio e térbio podem ajudar a preservar propriedades magnéticas em temperaturas elevadas. Ímãs dessa cadeia aparecem em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, motores industriais, centros de dados e alguns sistemas de defesa.
Uma pequena quantidade de material pode participar de produtos de enorme valor econômico. O mineral importa. O sistema econômico inclui tudo o que acontece depois dele.
neodymium
Foi dessa matéria que surgiu o nome NEODY.
O neodímio fornece uma metáfora particularmente adequada para a discussão que pretendemos construir. Um recurso pode permanecer no solo, ser extraído, concentrado, separado e refinado. Pode integrar uma liga, tornar-se parte de um ímã de alto desempenho e, finalmente, de um motor, equipamento industrial ou infraestrutura tecnológica.
O valor muda à medida que conhecimento, tecnologia e capacidade produtiva são incorporados. Essa lógica ultrapassa a mineração. Vale para dados, inteligência artificial, empresas e países.
A inteligência que antes exigia estruturas muito maiores começa a mudar de escala
Durante décadas, inteligência de mercado sofisticada esteve muito mais acessível às organizações capazes de financiar departamentos especializados, pesquisas proprietárias, grandes bases de dados, consultorias e ferramentas analíticas. Uma companhia de grande porte podia investigar regiões, monitorar concorrentes, estudar comportamento, projetar demanda e cruzar grandes quantidades de informação. Para uma pequena empresa, muitas dessas capacidades tinham custo proibitivo.
Esse desequilíbrio não desapareceu, mas começou a diminuir. Dados públicos estão mais acessíveis; infraestrutura computacional pode ser contratada como serviço; ferramentas analíticas ficaram mais baratas. Modelos de inteligência artificial conseguem pesquisar, organizar, comparar e interpretar volumes de informação que anteriormente exigiam muito mais tempo humano.
A pesquisa TIC Empresas 2025, divulgada pelo Cetic.br em 2026, encontrou uso de tecnologias de inteligência artificial em 17% das empresas da população pesquisada, ante 13% no ano anterior. Entre empresas de 10 a 49 pessoas ocupadas, o indicador passou de 10% para 15%. Entre organizações com 250 pessoas ou mais, chegou a 50%. Foram entrevistadas 4.174 empresas; o levantamento cobre empresas brasileiras com mais de dez integrantes.
A distância entre portes continua grande. Mas existe uma mudança estrutural acontecendo.
O empresário pode começar a observar um mercado que antes enxergava apenas parcialmente
Observamos, em consultorias realizadas pela NEODY em projetos do ecossistema Sebrae, um padrão. Encontramos empresários com grande conhecimento de seus produtos, operações e clientes, mas com estruturas muito menos desenvolvidas para observar sistematicamente o mercado ao redor.
Essa observação não constitui uma pesquisa estatisticamente representativa das pequenas empresas brasileiras. É uma constatação de campo que merece investigação mais ampla. Mas as perguntas que surgem dela são relevantes.
Uma empresa pode saber exatamente quanto vendeu ontem e não conhecer o tamanho da demanda disponível ao seu redor. Pode saber quais clientes compraram e desconhecer por que outros deixaram de comprar. Pode acompanhar o próprio preço e não compreender a estrutura de preços do mercado.
Pode perceber a redução do movimento de um centro comercial sem conseguir separar os efeitos de novos polos de varejo, comércio eletrônico, mobilidade urbana, renda, segurança, mudanças demográficas e comportamento do consumidor. Pode celebrar aumento de faturamento enquanto margem, custo de aquisição ou dependência de determinado canal deterioram a qualidade econômica desse crescimento. É nesse espaço que inteligência de mercado ganha relevância.
O pequeno negócio não precisa permanecer pequeno em informação
Uma indústria regional pode estudar em quais municípios existe maior potencial de distribuição. Um varejista pode avaliar busca, concorrência, reputação e comportamento antes de escolher um novo ponto. Uma distribuidora pode comparar territórios e identificar áreas pouco atendidas. Uma empresa B2B pode mapear potenciais clientes antes de ampliar a equipe comercial. Um fabricante pode acompanhar preço, presença digital e posicionamento de concorrentes.
Nenhuma dessas análises elimina a incerteza ou garante uma decisão correta. Informação estruturada pode, porém, melhorar a pergunta, revelar alternativas e reduzir decisões tomadas exclusivamente por percepção.
Uma empresa menor continuará tendo menos capital que uma corporação de grande porte. Ela não precisa necessariamente permanecer com tão pouca capacidade de observar o mercado.
Letramento em inteligência artificial é maior do que aprender uma ferramenta
Existe o risco de reduzir a discussão sobre inteligência artificial a uma coleção de comandos, aplicativos e automações. Letramento tecnológico exige compreender o que a tecnologia consegue fazer, onde falha, como verificar informações, quais dados podem ser utilizados e quais não deveriam ser compartilhados.
Exige decidir quando automatizar e quando manter intervenção humana; como medir produtividade; como distinguir uma demonstração impressionante de uma aplicação economicamente útil. E, principalmente, como conectar tecnologia a uma decisão empresarial.
Uma organização que domina um aplicativo não necessariamente domina inteligência artificial. Da mesma maneira, uma organização com milhares de dados não necessariamente possui inteligência de mercado. O valor surge quando existe método para transformar informação em entendimento e entendimento em ação.
Há uma diferença entre utilizar tecnologia e construir capacidade tecnológica
Uma economia pode possuir um recurso mineral e depender de outros países para transformá-lo em componentes sofisticados. Pode também utilizar ferramentas digitais avançadas e continuar dependente de infraestrutura, conhecimento e tecnologias desenvolvidas externamente.
Esses cenários não significam que toda tecnologia deva ser produzida domesticamente. Cadeias modernas são internacionais; cooperação, comércio, capital e especialização fazem parte delas. A questão estratégica é: em quais etapas uma empresa, uma indústria ou uma economia pretende construir capacidade própria?
O próximo salto acontece depois do acesso
Acesso ao mineral, aos dados ou à inteligência artificial é o começo. Depois vêm as capacidades que transformam esses recursos em resultados.
No universo mineral: extração → separação → refino → material → componente → produto.
No universo empresarial: dado → contexto → análise → decisão → execução → aprendizado.
Existe uma lógica comum entre essas cadeias: quanto maior a capacidade de transformar um recurso, maior tende a ser a possibilidade de capturar valor sobre ele. É nesse ponto que o significado de NEODY (neodymium) encontra a nossa missão editorial.
Prosperidade não virá de um prompt
Novas tecnologias geram entusiasmo e exageros. A inteligência artificial criará empresas, produtos, profissões e mercados. Também produzirá projetos ruins, desperdício, expectativas equivocadas e investimentos feitos por receio de ficar para trás.
Por isso, a NEODY não parte da premissa de que tecnologia produz prosperidade automaticamente. Empresas continuam dependendo de mercado, margem, capital, pessoas, estratégia, execução, aprendizado, disciplina e resiliência. A IA altera profundamente algumas capacidades disponíveis, mas não elimina os fundamentos empresariais.
A oportunidade brasileira está na transformação
O Brasil possui aproximadamente 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras estimadas pelo USGS. Possui uma nova política nacional para minerais críticos e estratégicos. Possui empresas começando a ampliar o uso de inteligência artificial. E possui uma base empresarial na qual informação, tecnologia e capacidade de análise podem modificar decisões em milhares de mercados locais e cadeias produtivas.
Nada disso determina previamente o resultado. Mas revela a dimensão da oportunidade. Existe riqueza abaixo da superfície, informação disponível e novas ferramentas para compreendê-la. O desafio é construir a capacidade que existe entre uma coisa e outra.
O recurso pode estar no solo. O dado pode estar disponível. A vantagem começa quando existe conhecimento para transformá-los.
- Do mineral ao material.
- Do dado à decisão.
- Da pesquisa à tecnologia.
- Da inteligência à execução.
- Da matéria-prima ao valor.
O Brasil não precisa apenas extrair o futuro.
Precisa ser capaz de desenvolvê-lo.
NEODY. neodymium
Inteligência para negócios.
PERGUNTAS ESSENCIAIS
Terras raras, IA e decisões empresariais
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo?
Na tabela de reservas nacionais quantificadas do Mineral Commodity Summaries 2026, o USGS estima 21 milhões de toneladas para o Brasil, atrás dos 44 milhões de toneladas da China. Reserva estimada não significa produção nem capacidade de refino.
Quais terras raras são importantes para ímãs permanentes?
A Agência Internacional de Energia acompanha principalmente neodímio, praseodímio, disprósio e térbio na cadeia dos ímãs permanentes de alto desempenho. Sua importância depende da aplicação e da composição do ímã.
Para que serve o neodímio?
O neodímio integra ímãs permanentes NdFeB usados em motores, geradores e outros equipamentos. Entre o minério e o componente final há separação, refino, produção de metais, ligas e fabricação industrial.
Qual é a relação entre terras raras e inteligência artificial?
A relação é estratégica, não uma equivalência técnica: minerais e materiais podem integrar infraestrutura tecnológica, enquanto a IA amplia capacidades de análise e decisão. Nos dois casos, o valor depende do conhecimento aplicado após o acesso ao recurso.
Como uma pequena empresa pode usar IA com estratégia?
Ela pode começar por uma decisão concreta, definir o indicador certo, verificar dados e limitações, testar uma aplicação pequena e medir o resultado. Automatizar uma atividade sem entender o problema pode ampliar erros.
Fontes e método
Dados de reservas e produção se referem às estimativas do USGS para 2025, publicadas em 2026. Participações na cadeia de ímãs se referem a 2024 e a universos específicos descritos pela IEA. A experiência de campo da NEODY é qualitativa e não deve ser extrapolada para todas as empresas brasileiras.
- USGS, Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths
- IEA, Rare Earth Elements: Executive Summary
- Cetic.br, TIC Empresas 2025
- Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026
Leia também: quanto a IA precisa economizar para se pagar, como preparar dados comerciais para agentes de IA e a política editorial da NEODY.
