Em 4 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva terminou o primeiro turno da eleição presidencial atrás de Flávio Bolsonaro. Em 25 de outubro, venceu a disputa com 51,79% dos votos válidos. O intervalo de três semanas coincidiu com uma mobilização intensa nas ruas, nas plataformas sociais e nos aplicativos de mensagens.
A diferença entre a votação de Lula no primeiro e no segundo turno foi de 10.376.694 votos. No WhatsApp, o canal Exército do Lula, administrado pelo deputado federal André Janones, alcançou cerca de 10,8 milhões de seguidores, segundo levantamento publicado pela BBC News Brasil em 26 de outubro.
Os valores têm ordem de grandeza semelhante. Mas o que essa coincidência diz sobre as eleições e a comunicação política? E quais conclusões podem interessar a pesquisadores de democracias em outros países?
Quanto Lula cresceu entre o primeiro e o segundo turno de 2026?
A totalização final do Tribunal Superior Eleitoral confirmou 64.256.232 votos para Lula e 59.826.041 para Flávio Bolsonaro no segundo turno. Os números definitivos do primeiro turno foram divulgados após a primeira totalização e estão registrados na cobertura dos dados do TSE.
| Candidato | 1º turno, 4 de outubro | 2º turno, 25 de outubro | Aumento de votos |
|---|---|---|---|
| Lula (PT) | 53.879.538 | 64.256.232 | 10.376.694 |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 56.104.503 | 59.826.041 | 3.721.538 |
Fontes: TSE, apurações definitivas de 4 e 25 de outubro de 2026. Cálculos: NEODY. Os aumentos representam variação líquida na votação de cada candidato, não identificação individual de eleitores.
O crescimento de Lula foi de 19,3% em relação aos votos que tinha no primeiro turno. O avanço de Flávio foi de 6,6%. Lula havia terminado o primeiro turno com uma desvantagem de 2.224.965 votos e concluiu o segundo com uma vantagem de 4.430.191.
Outro movimento é mensurável: a abstenção recuou de 21,08% para aproximadamente 19,2%. Essa mudança elevou a participação eleitoral. Também havia eleitores que, no primeiro turno, votaram em candidatos eliminados, brancos ou nulos. Como o voto é secreto, a totalização não mostra a trajetória individual de cada pessoa entre os turnos.

O Exército do Lula teve quantos seguidores?
O canal organizado por André Janones apresentou crescimento acelerado na reta final da eleição. Reportagens publicadas em datas diferentes permitem reconstituir parte da expansão.
| Data | Indicador divulgado | Fonte |
|---|---|---|
| 11 de outubro | 3,3 milhões de seguidores | Agência Brasil |
| 22 de outubro | 8,5 milhões de seguidores | Agência Brasil |
| 23 de outubro | Mais de 10 milhões | Mobile Time |
| 26 de outubro | Cerca de 10,8 milhões | BBC News Brasil |
As contagens correspondem a instantes diferentes. Não são uma série homogênea coletada por um mesmo sistema de medição.
O canal concentra mensagens produzidas pelos administradores e permite que seguidores as compartilhem em conversas pessoais ou em outras redes. Na cobertura da BBC reproduzida pelo Terra, há registros de orientações para compartilhar vídeos, divulgar publicações e ampliar a participação em outras plataformas.
A mesma reportagem relata que o perfil de Janones no Instagram passou de aproximadamente 2,78 milhões para 6,88 milhões de seguidores entre o primeiro turno e 23 de outubro, conforme dados do SocialBlade. Esse aumento mede audiência da conta, não alterações individuais de intenção de voto.
A participação do próprio Lula em transmissão ao vivo com Janones em 22 de outubro aproximou a comunicação do candidato dessa estrutura de mobilização.

Os 10,8 milhões de seguidores explicam os 10,3 milhões de votos adicionais?
Não existe demonstração dessa equivalência. Uma conta pode seguir um canal sem estar habilitada a votar, sem acompanhar suas publicações ou sem alterar a preferência eleitoral. Entre os seguidores estão, naturalmente, pessoas que já votariam no candidato no primeiro turno.
É possível que uma rede de comunicação digital participe de processos de mobilização eleitoral, circulação de informações e incentivo ao comparecimento. Para estimar seu efeito sobre o voto, seriam necessárias pesquisas com desenho apropriado, identificação de exposição ao conteúdo e comparação com grupos que não tiveram a mesma exposição.
A semelhança dos números constitui uma hipótese de pesquisa pertinente, mas não uma prova de conversão de seguidores em votos. Também seria um erro atribuir todo o avanço eleitoral a um único canal, descartando fatores como debates, campanhas presenciais, participação de movimentos sociais, decisões dos demais eleitores e ações das duas candidaturas.
O que os números permitem afirmar
- Fato: Lula recebeu 10.376.694 votos a mais entre os turnos.
- Fato: o canal de Janones chegou a cerca de 10,8 milhões de seguidores na reta final.
- Fato: a abstenção nacional caiu em relação ao primeiro turno.
- Interpretação: a comunicação digital tornou-se um componente visível e de grande escala na campanha.
- Limitação: não há, nesses indicadores isolados, uma medida causal da influência do canal sobre a votação.
Como a comunicação da campanha mudou entre os turnos?
A cobertura da Agência Brasil sobre a vitória descreve a adoção de vídeos mais informais, falas diretas à câmera e um maior volume de circulação de conteúdo digital, paralelamente a mobilizações nas ruas.
O WhatsApp funcionou como ponto de distribuição de orientações e conteúdo. Outros aplicativos ampliaram a circulação para públicos diferentes. Esse tipo de coordenação reduz a dependência de uma única conta pública, mas também dificulta a medição de alcance efetivo e a auditoria de mensagens que circulam em redes privadas.
Mobilização ou propaganda irregular?
O canal também foi objeto de disputa na Justiça Eleitoral. A campanha de Flávio Bolsonaro apresentou denúncias envolvendo conteúdos considerados desinformativos e o funcionamento da estrutura digital. Janones contestou as acusações.
Em outubro, o presidente do TSE determinou restrições e suspensões que foram questionadas em outras decisões. Posteriormente, a campanha de Lula registrou o endereço do canal e o funcionamento foi restabelecido. A cronologia da Agência Brasil documenta as medidas e os fundamentos informados pelas autoridades.
Esses episódios colocam a mesma pergunta para qualquer organização política: como assegurar participação legítima, responsabilização de administradores, direito de defesa e prevenção de desinformação em serviços privados de comunicação de grande escala?
O que Lula prometeu sobre comunicação digital e big techs?
Em 25 de outubro, após a confirmação do resultado, Lula disse que a comunicação digital ganharia mais espaço no novo governo e prometeu ampliar a participação popular nas decisões. Em outro trecho, defendeu maior regulação das plataformas, associando sua proposta a alegações de interferência externa durante a campanha.
A acusação de interferência é uma declaração política do presidente reeleito. Sua confirmação depende de evidências específicas sobre condutas, decisões das plataformas e eventuais violações. O controle regulatório, por sua vez, exige normas públicas, fiscalização proporcional, proteção à liberdade de expressão e procedimentos de contestação.
Há uma tensão de interesse público: governos precisam informar a população, mas a comunicação direta de autoridades não pode substituir o jornalismo independente nem os mecanismos de fiscalização dos próprios governantes.
Datacenters e inteligência artificial brasileira: promessa ou política em andamento?
No mesmo discurso, Lula defendeu atrair datacenters com energia renovável e desenvolver inteligência artificial no Brasil.
Duas iniciativas já existiam antes da votação:
| Iniciativa | Situação até outubro de 2026 | O que acompanhar |
|---|---|---|
| Redata | Regime de tributação para datacenters instituído pela Lei nº 15.504, de 15 de setembro de 2026 | Projetos habilitados, investimento efetivo, exigências ambientais e capacidade instalada |
| Plano Brasileiro de Inteligência Artificial | Documento do MCTI prevê R$ 23,03 bilhões para 2024 a 2028 | Execução dos recursos, pesquisa, formação, infraestrutura e aplicações nacionais |
O valor de R$ 23,03 bilhões corresponde à previsão de investimentos do plano, não à execução integral comprovada. A existência de um regime tributário também não comprova, sozinha, que novos centros de dados foram construídos.
Instalar servidores no Brasil pode ampliar capacidades locais, mas soberania tecnológica também envolve controle dos dados, propriedade intelectual, contratos, acesso empresarial e capacidade de pesquisa independente.
O que a experiência brasileira oferece ao debate internacional?
O episódio é relevante para estudos sobre comunicação política, participação democrática e regulação de plataformas. Alguns elementos merecem ser comparados com experiências de outros países, inclusive de organizações do campo progressista.
| Tema de investigação | Questão de interesse público |
|---|---|
| Comunidades digitais | Como medir participação real sem confundir seguidores e eleitores? |
| Comunicação entre plataformas | Como mensagens passam de redes privadas para espaços públicos e vice-versa? |
| Comparecimento às urnas | Qual é a relação entre atividades digitais e participação efetiva nas eleições? |
| Integridade informacional | Como lidar com desinformação e decisões de moderação, com transparência e direito de defesa? |
| Relação governo e sociedade | Como transformar canais de campanha em espaços institucionais de participação sem excluir o contraditório? |
| Economia digital | Quais resultados de infraestrutura e inteligência artificial são verificáveis, além dos anúncios? |
O caso brasileiro também pode ser comparado a normas como o Digital Services Act da União Europeia, que estabelece obrigações para grandes plataformas sobre transparência e avaliação de riscos sistêmicos.
Essas questões não se limitam a um campo ideológico. Plataformas digitais e suas regras afetam partidos concorrentes, veículos jornalísticos, organizações civis e cidadãos.
O que ainda precisa ser demonstrado
A análise dos dados por estado e município poderá revelar onde o aumento da votação foi mais intenso e como se relaciona com comparecimento e transferências agregadas. Isso não identificará individualmente os novos eleitores nem provará efeitos de uma campanha no WhatsApp.
Para avançar, a investigação deverá confrontar dados oficiais do TSE, levantamentos independentes de alcance, pesquisas longitudinais e informações públicas sobre gastos e decisões judiciais.
Conclusão: a eleição de 2026 demonstrou a escala que a mobilização digital pode atingir durante uma campanha presidencial. Os 10,3 milhões de votos adicionais de Lula e os cerca de 10,8 milhões de seguidores do Exército do Lula são dois fatos relevantes, mas diferentes. O debate sobre seu significado exigirá medir efeitos, preservar a integridade eleitoral e acompanhar as promessas do próximo mandato com critérios verificáveis.
Nota de apuração: dados eleitorais definitivos do TSE e números de audiência publicados até 26 de outubro de 2026. A NEODY não teve acesso a dados individuais dos seguidores do canal ou a pesquisa causal que quantifique sua influência no voto. Fotos jornalísticas reproduzidas com crédito de autoria para contextualização da reportagem.



