Durante décadas, empresas aprenderam a disputar atenção.
Primeiro nas ruas. Depois nas prateleiras, na televisão, nos buscadores, nas redes sociais e nos marketplaces.
Cada nova interface alterou a forma como consumidores descobriam produtos, comparavam alternativas e chegavam até uma compra.
Uma nova interface começa a ocupar esse caminho.
Imagine dizer a uma inteligência artificial:
“Preciso de um notebook para edição de vídeo. Quero gastar até R$ 8 mil, receber até sexta-feira e comprar de uma loja com boa política de garantia.”
A IA pode pesquisar, comparar especificações, eliminar produtos incompatíveis, verificar preço e disponibilidade e selecionar alternativas.
E, com autorização, pode participar da conclusão da compra.
A diferença parece pequena.
Economicamente, não é.
Durante décadas, empresas aprenderam a vender para pessoas. Agora precisam descobrir como competir quando uma máquina participa da decisão de compra.
A infraestrutura já começou a aparecer
Em janeiro de 2026, o Google apresentou o Universal Commerce Protocol, ou UCP.
O padrão aberto foi criado para permitir que superfícies utilizadas pelos consumidores, empresas e provedores de pagamento compartilhem uma linguagem comum no comércio mediado por agentes.
O protocolo foi desenvolvido pelo Google em colaboração com Shopify, Etsy, Wayfair, Target e Walmart e recebeu apoio de mais de 20 participantes do ecossistema, incluindo Mastercard, Visa e Stripe.
Isso não significa que compras autônomas já sejam rotina.
Significa que algumas das maiores empresas da infraestrutura do comércio estão tentando resolver um problema anterior: como fazer uma máquina percorrer tecnicamente o caminho entre intenção e transação.
No Brasil, um agente já iniciou uma transação
Em 11 de março de 2026, Banco do Brasil e Visa realizaram o que as empresas anunciaram como a primeira transação com agente de IA no país.
Ela ocorreu em ambiente de produção controlado.
Um cartão BB Visa foi habilitado para o processamento e o agente iniciou o pagamento em nome do cliente. Autenticação, tokenização e controles de segurança foram suportados pela rede da Visa.
Não foi uma compra autônoma liberada em larga escala para consumidores brasileiros.
Mas também deixou de ser apenas uma demonstração conceitual.
A pessoa continua sendo a dona da intenção e do dinheiro. O software começa a executar partes da compra.
A jornada muda quando surge um intermediário
No comércio digital tradicional, uma jornada simplificada pode ser representada assim:
NECESSIDADE → BUSCA → RESULTADOS → SITE/MARKETPLACE → COMPARAÇÃO → CHECKOUT
Com agentes, outro percurso torna-se possível:
INTENÇÃO → AGENTE → DESCOBERTA → COMPARAÇÃO → ESCOLHA → AUTORIZAÇÃO → TRANSAÇÃO
A primeira jornada não precisa desaparecer para que a segunda se torne economicamente relevante.
O ponto importante está no meio.
O agente começa a ocupar espaço entre intenção e escolha.
É justamente ali que empresas investem em SEO, mídia, marketplaces, conteúdo, influência, experiência e conversão.
Se parte dessa seleção acontecer dentro de uma conversa com uma inteligência artificial, muda também o objeto da competição.
O produto precisa ser entendido antes de ser escolhido
Considere três lojas vendendo produtos equivalentes.
A primeira oferece preço baixo, mas não deixa clara a disponibilidade.
A segunda apresenta preço, estoque, prazo, garantia e política de devolução de maneira estruturada.
A terceira tem uma marca forte, mas informações de entrega inconsistentes entre diferentes páginas.
Qual delas será selecionada por um agente?
Ainda não existe uma resposta universal.
Modelos diferentes podem usar fontes, critérios, integrações e instruções diferentes. O próprio consumidor também pode estabelecer suas prioridades.
Mas, para recomendar ou comprar, o agente precisa conseguir responder perguntas concretas.
O produto existe?
Quanto custa agora?
Está disponível?
Serve para aquilo que o consumidor pediu?
Quando chega?
Qual é a garantia?
É possível devolver?
É possível concluir a transação?
A Mastercard tornou essa necessidade explícita ao apresentar o Agent Connect em setembro. A solução prevê acesso autorizado a dados de catálogo, preço, disponibilidade e fulfillment, montagem de carrinho e conclusão de transações autorizadas pelo consumidor.
Informação comercial passa a desempenhar duas funções.
Continua ajudando uma pessoa a decidir.
Mas também pode ajudar uma máquina a decidir quais alternativas merecem chegar à pessoa.
Quando uma máquina participa da seleção, informações que pareciam detalhes operacionais podem se transformar em atributos competitivos.
Isso não significa o fim das marcas
Seria tentador concluir que agentes transformarão produtos em uma grande tabela de preço e especificações.
É cedo para afirmar isso.
Considere três comandos.
“Compre um tênis Nike para corrida.”
A preferência pela marca existe antes de o agente começar a pesquisar.
Agora:
“Encontre o melhor tênis para uma pessoa de 90 quilos que corre dez quilômetros três vezes por semana e custa até R$ 900.”
A escolha deixa espaço maior para comparação.
E existe uma terceira situação:
“Compre novamente o café que pedi no mês passado.”
Aqui entram histórico, preferência e recompra.
A questão mais interessante não é se a IA acabará com o branding.
É descobrir em qual momento da decisão a marca continuará exercendo influência.
O marketing pode ganhar uma segunda audiência
Até agora, grande parte da comunicação digital foi construída para olhos humanos.
A página precisa chamar atenção. A fotografia precisa despertar desejo. O texto precisa persuadir. A experiência precisa transmitir confiança.
Nada disso necessariamente desaparece.
Mas uma camada adicional pode surgir.
Para a pessoa
Confiança. Desejo. Identidade. Experiência. Conveniência.
Para o agente
Produto. Preço. Disponibilidade. Compatibilidade. Prazo. Entrega. Garantia. Regras da transação.
Uma empresa poderá precisar funcionar bem para as duas.
O consumidor continua determinando necessidades, preferências e limites.
O agente pode participar da tarefa de transformar essas intenções em uma lista muito menor de alternativas.
Antes, a pergunta era:
Como faço o consumidor escolher meu produto?
Agora pode surgir outra:
Como faço meu produto chegar ao conjunto que será apresentado ao consumidor?
Quem controla essa nova prateleira?
Existe uma questão econômica ainda maior.
Se agentes começarem a intermediar uma parcela relevante das compras, alguém precisará conectá-los aos comerciantes.
Google está criando protocolos.
Visa está desenvolvendo infraestrutura para pagamentos iniciados por agentes.
Mastercard criou o Agent Connect para conectar agentes, comerciantes, plataformas digitais e provedores de pagamento por uma única integração.
A Mastercard afirma que comerciantes poderão escolher em quais experiências participar e manter controle sobre preço, fulfillment, relacionamento com clientes, experiência de marca e regras comerciais.
Surge então uma disputa que vai além do varejo:
quem controla a interface entre intenção e oferta?
O buscador?
O assistente de IA?
O marketplace?
O banco?
A bandeira de pagamento?
O varejista?
O fabricante?
Ainda não existe uma resposta consolidada.
Mas essa pode se tornar uma das disputas centrais da próxima arquitetura do comércio digital.
Da resposta à transação
A NEODY já investigou uma pergunta anterior dessa transformação:
O cliente perguntou à IA. Sua marca apareceu?
O comércio agêntico acrescenta uma camada.
A empresa pode aparecer na resposta e ainda assim não estar preparada para a transação.
ENCONTRÁVEL → COMPREENSÍVEL → CONSIDERÁVEL → TRANSACIONÁVEL
Encontrável: o agente consegue descobrir que a empresa e o produto existem.
Compreensível: consegue interpretar produto, características, preço e condições.
Considerável: existem informações suficientes para comparar aquela oferta com alternativas.
Transacionável: existe infraestrutura para transformar a seleção em uma operação autorizada.
Uma companhia pode investir para aparecer nas respostas de IA e descobrir que a concorrente está mais preparada justamente na etapa seguinte.
O que uma empresa deveria investigar agora
Não é necessário reconstruir toda a operação comercial com base em uma tecnologia cuja adoção ainda está em formação.
Mas já existem perguntas que podem ser respondidas.
Seu catálogo apresenta informações consistentes?
Preço e disponibilidade estão atualizados?
Produtos possuem especificações inequívocas?
Prazo, frete, devolução e garantia podem ser identificados facilmente?
As informações do site contradizem marketplaces ou distribuidores?
A empresa consegue ser encontrada quando a busca parte de uma necessidade, e não do seu nome?
E, principalmente:
o que acontece quando alguém pede a uma IA exatamente o produto ou serviço que sua empresa vende?
Essa última pergunta pode ser testada hoje.
A próxima disputa pode acontecer antes do clique
A internet ensinou empresas a disputar visitas.
Os mecanismos de busca ensinaram a disputar posições.
As redes sociais transformaram atenção em distribuição.
Os marketplaces concentraram descoberta, comparação e transação em uma mesma interface.
Agentes podem reorganizar essas etapas novamente.
Não sabemos qual parcela do comércio será intermediada por eles.
Não sabemos quais categorias migrarão primeiro.
Também não sabemos quanto controle os consumidores estarão dispostos a delegar.
Mas Google, Visa e Mastercard já estão construindo peças da infraestrutura necessária, e o Brasil já registrou uma transação iniciada por agente em ambiente controlado.
Por isso, talvez seja cedo para redesenhar toda a estratégia comercial em torno dos agentes.
Mas já não é cedo para começar a observar como eles escolhem.
Durante anos, empresas perguntaram:
“O cliente consegue encontrar meu produto?”
Depois:
“Ele consegue comprá-lo facilmente?”
Agora surge uma terceira pergunta:
Se meu cliente mandar uma IA comprar por ele, meu produto consegue chegar até a escolha?
Essa decisão começa antes do checkout.





