Preço que muda conforme a demanda deixou de ser assunto só de companhia aérea e aplicativo de transporte. Cardápio digital, agenda online e loja virtual permitem que qualquer pequena empresa cobre mais no horário cheio, menos no vazio, ou ajuste o valor conforme o estoque. A tecnologia está disponível. A pergunta é quando isso aumenta a margem e quando afasta o cliente que sustenta o negócio.
O que aconteceu com quem testou preço dinâmico?
FATO. Em fevereiro de 2024, o presidente da rede de lanchonetes americana Wendy’s anunciou investimento em cardápios digitais e disse que, a partir de 2025, a empresa começaria a testar recursos como preço dinâmico. A reação foi imediata, com críticas a uma suposta cobrança maior nos horários de pico. A empresa negou que pretendesse cobrar mais no pico e disse que a tecnologia serviria para mudar os itens em destaque.
FATO. No Reino Unido, a venda de ingressos dos shows de reunião do Oasis levou a uma investigação da autoridade de concorrência. A CMA concluiu que fãs em filas longas não foram avisados de que ingressos de pista eram vendidos em dois preços e que o valor subiria quando os mais baratos acabassem. A autoridade não encontrou evidência de preço dinâmico, embora muitos fãs acreditassem nisso. Em setembro de 2025, a Ticketmaster se comprometeu a avisar com 24 horas de antecedência quando usar faixas de preço e a mostrar a variação de valores na fila.
ANÁLISE NEODY. Nos dois casos, o problema não foi a variação em si. Foi a sensação de que a empresa usava o momento de maior necessidade do cliente para cobrar mais, sem avisar.
O que diz a lei brasileira?
FATO. O Código de Defesa do Consumidor garante informação adequada e clara sobre preço e proíbe, no artigo 39, elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços e exigir vantagem manifestamente excessiva.
FATO. Em 12 de dezembro de 2025, o Procon Paulistano notificou Uber e 99 e pediu a justificativa técnica e econômica do preço dinâmico, as medidas contra preços abusivos em alta demanda, a existência de teto de tarifa e a forma de informar o consumidor. Para o órgão, preços desproporcionais sem justificativa clara podem caracterizar prática abusiva. A notificação pediu esclarecimentos em dez dias, mas não equivale a decisão definitiva de irregularidade. Não foi identificada uma conclusão pública posterior nas fontes consultadas.
FATO. Quando o preço é definido a partir de dados pessoais, entra também a LGPD, que dá ao titular o direito de pedir revisão de decisões tomadas apenas por tratamento automatizado. Fora do Brasil, a FTC americana publicou em janeiro de 2025 os primeiros resultados de um estudo sobre intermediários que usam dados de consumidores para influenciar preços. Desde novembro de 2025, Nova York exige que empresas avisem quando um preço foi definido por algoritmo com dados pessoais, com multa de até US$ 1.000 por infração.
Por que o cliente aceita desconto e rejeita acréscimo?
FATO. Em um estudo clássico publicado na American Economic Review em 1986, os economistas Daniel Kahneman, Jack Knetsch e Richard Thaler perguntaram a consumidores se era justo uma loja de ferragens subir o preço das pás de neve na manhã seguinte a uma nevasca. A maioria considerou injusto. O mesmo trabalho mostrou que as pessoas aceitam melhor a retirada de um desconto do que um aumento sobre o preço de referência.
ANÁLISE NEODY. A lição vale para qualquer cardápio ou agenda: “10% de desconto antes das 18h” e “10% a mais depois das 18h” podem produzir o mesmo preço médio, mas não a mesma reação. O desconto preserva a confiança. Tem, porém, um custo que costuma ser subestimado.
Quanto a empresa ganha e quanto pode perder?
A conta precisa separar dois efeitos que costumam ser misturados. O primeiro é imediato: com o preço mais alto, alguns pedidos deixam de acontecer naquele horário. O segundo é de relação: alguns clientes se incomodam e deixam de voltar, em qualquer horário. O primeiro se mede em pedidos por semana. O segundo, em clientes perdidos, e cada cliente perdido leva junto todos os pedidos que faria dali em diante.
Exemplo calculado
Acréscimo no pico ou desconto fora dele
Valores ilustrativos, construídos para demonstrar o cálculo.
Premissas hipotéticas: restaurante com 2.000 clientes ativos, que fazem em média 0,5 pedido por semana cada, ou seja, 1.000 pedidos semanais. Tíquete médio de R$ 40 e margem de contribuição de 40%, ou R$ 16 por pedido. Desses pedidos, 300 acontecem no horário de pico e 700 fora dele.
Opção 1: 10% a mais no pico
Efeito imediato, em pedidos
- Novo preço no pico: R$ 44, com margem de R$ 20 por pedido
- Pedidos no pico caem 5%, de 300 para 285, e esses 15 pedidos não migram para outro horário
- Margem do pico: 285 × R$ 20 = R$ 5.700, ante 300 × R$ 16 = R$ 4.800
- Ganho: R$ 900 por semana
Efeito de relação, em clientes
- Cada cliente médio que deixa de voltar retira 0,5 pedido × R$ 16 = R$ 8 de margem por semana, todas as semanas
- O ganho de R$ 900 desaparece quando a empresa acumula cerca de 113 clientes perdidos, 5,6% da base, porque R$ 900 ÷ R$ 8 ≈ 113
- Se quem desiste é cliente frequente do pico, com 1 pedido por semana, bastam cerca de 56 clientes, 2,8% da base
- O tempo pesa: se 10 clientes médios desistirem a cada semana, a perda semanal passa dos R$ 900 na 12ª semana, e a partir daí a política passa a dar prejuízo
Opção 2: 10% de desconto fora do pico
- Novo preço fora do pico: R$ 36, com margem de R$ 12 por pedido
- Sem aumento de volume, a margem fora do pico cai de R$ 11.200 para R$ 8.400: perda de R$ 2.800 por semana
- Para empatar, os pedidos fora do pico precisam subir de 700 para cerca de 933, um aumento de 33%
- Pedidos que apenas trocam o pico pelo horário com desconto não ajudam: passam a render R$ 12 em vez de R$ 16
ANÁLISE NEODY. A opção 1 rende mais no curto prazo, mas o risco está no estoque de clientes, não no movimento da semana: uma desistência pequena e contínua apaga o ganho em poucos meses. A opção 2 protege a relação, mas só se paga se o desconto trouxer pedidos novos, e não apenas mudar o horário de quem já viria. Nenhuma das duas deve ser adotada sem medir antes quanto a demanda reage em cada horário e quantos clientes deixam de voltar.
Quando o preço dinâmico funciona?
Modelo de decisão
Preço dinâmico: sinais verdes e vermelhos
Funciona quando:
- A capacidade se perde. Horário de serviço, mesa, quarto, ingresso ou produto perecível que não é vendido pode representar receita não recuperável.
- A regra é pública e igual para todos. Horário, dia da semana ou prazo de validade, informados antes da compra.
- O cliente entende o motivo. Mais demanda, menos oferta ou produto perto do vencimento.
- Existe alternativa para o cliente. Outro horário, outro dia, outro produto com preço menor.
Destrói confiança quando:
- O cliente é recorrente e lembra o preço. Ele percebe a variação e compara com a última compra.
- O item é essencial ou a situação é de emergência. É o caso em que o CDC e os Procons tendem a ver vantagem excessiva.
- O preço muda depois que o cliente decidiu. Na fila, no carrinho ou no balcão.
- O preço usa dados pessoais. Histórico, localização ou perfil do cliente, sem aviso e sem regra clara.
Perguntas para levar à reunião
- Quais horários, dias ou produtos têm capacidade que se perde quando não vendida?
- Sabemos quanto a demanda cai quando o preço sobe 10% em cada horário?
- Nossa regra de variação de preço poderia ser explicada em uma frase ao cliente?
- Estamos usando algum dado pessoal do cliente para definir preço?
Sobre a apuração: análise baseada em documentos de reguladores dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Brasil, na legislação brasileira, em reportagens e em pesquisa acadêmica sobre percepção de justiça em preços. Os cálculos são da NEODY.





