Inteligência ArtificialReportagem

O Brasil já usa inteligência artificial. Mas ainda está na ponta do iceberg

A adoção cresce, mas apenas 15% das empresas que utilizam IA chegaram ao estágio avançado. O desafio agora é integrar conhecimento, processos e decisões.

Grande iceberg com pequena ponta acima da água e massa submersa iluminada em azul, diante de um escritório e de uma cidade ao pôr do sol.
Imagem: Imagem conceitual gerada por IA, selecionada para a NEODY.

Metade das empresas brasileiras já usa inteligência artificial. A informação sugere uma tecnologia disseminada, mas o dado seguinte muda a leitura: 58% das empresas que adotaram IA ainda a utilizam no nível básico. Somente 15% chegaram ao estágio avançado, segundo levantamento da Strand Partners para a AWS divulgado em setembro de 2026.

Para um empresário, a questão deixou de ser apenas “qual ferramenta de IA devo experimentar?”. A pergunta mais útil é “o que precisa mudar na minha operação para que a IA produza resultado?”.

O que os números mostram sobre a IA no Brasil

O estudo Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil 2026 estima que a adoção chegou a 50% das empresas, ante 40% na edição anterior. Entre as empresas que já adotaram IA, 58% estão no estágio básico, 27% no intermediário e 15% no avançado.

NEODY / LEITURA DE DADOSBRASIL · 2026

A IA chegou às empresas.
A transformação ainda está submersa.

Entre as empresas brasileiras que já utilizam inteligência artificial, o estudo da Strand Partners para a AWS identifica três estágios de maturidade.

58%Uso básico
IA aplicada a tarefas e ganhos pontuais de eficiência.
27%Integração intermediária
Tecnologia incorporada a produtos, serviços ou processos.
15%Aplicação avançada
Capacidade de transformar ou criar modelos de negócio.
85%

das empresas que adotaram IA ainda não estão no estágio avançado definido pela pesquisa.

Fonte: Strand Partners para AWS, divulgado em 3/9/2026. Base dos percentuais: empresas adotantes de IA, não todas as empresas brasileiras. O estudo foi encomendado por um fornecedor de tecnologia.
NEODY / A DEMANDA DO GESTOR

O empresário quer resultado. A ferramenta é o meio.

57%dos MEIs apontam aumento das vendas como principal resultado desejado ao adotar uma solução digital integrada.
50%das micro e pequenas empresas apontam aumento das vendas como principal resultado desejado.
15%das micro e pequenas empresas dizem utilizar IA generativa com frequência.
Fontes: Sebrae/FGV/Google, junho de 2026 (vendas em soluções digitais integradas) e Sebrae/FGV IBRE/Google, maio de 2026 (frequência de IA generativa). Pesquisas e perguntas diferentes: os percentuais não medem buscas no Google nem devem ser somados.

Para comparar os modelos e ver exemplos de aplicação gerencial, leia também: Qual IA é mais avançada? Gemini 4 Argon e seus concorrentes.

A metáfora do iceberg ajuda a entender o contraste. Na superfície, estão as tarefas mais visíveis: produzir textos, resumir reuniões, criar apresentações e organizar informações. Abaixo dela, surgem desafios mais difíceis de enxergar: conectar sistemas, estruturar dados, revisar decisões e transformar processos.

O iceberg é uma metáfora, não um gráfico de tamanho proporcional. Os percentuais do estudo classificam a maturidade das empresas adotantes. Não indicam a proporção de trabalho, investimento ou valor econômico existente em cada camada.

Também não significam que as empresas no estágio básico estejam erradas. Um uso pontual pode ser o melhor investimento para uma operação pequena. O estágio avançado descreve uma forma de aplicação, não uma obrigação universal.

O que o gestor brasileiro busca quando pensa em IA?

Os sinais de demanda apontam para problemas empresariais concretos. Em levantamento do Sebrae, FGV e Google sobre digitalização, aumentar as vendas aparece como principal resultado desejado ao contratar uma solução digital integrada: 57% entre microempreendedores individuais e 50% entre micro e pequenas empresas.

Outra pesquisa, realizada pelo Sebrae/FGV IBRE em parceria com o Google, mostra que apenas 15% das micro e pequenas empresas relatam uso frequente de IA generativa, apesar da ampla familiaridade com a tecnologia.

Esses estudos medem aspectos diferentes. O primeiro trata de prioridades de digitalização; o segundo, de frequência de uso de IA. Nenhum deles fornece um ranking de volume de pesquisas no Google. Juntos, porém, mostram por que a pauta precisa começar pelo problema do gestor, não pelo nome de um aplicativo.

As perguntas mais úteis para investigar são: como usar IA para vender mais? Quanto custa automatizar o atendimento? Quais tarefas compensam? Como conectar IA ao ERP e ao CRM? Quem confere os resultados? Como medir retorno?

A transformação começa quando a informação vira ferramenta de decisão

Um movimento de publicações internacionais oferece uma pista do que pode acontecer dentro das empresas: acervos de informação estão se tornando produtos de pesquisa.

A Bloomberg ampliou o ASKB, interface de perguntas em linguagem natural associada à pesquisa financeira e aos dados do Bloomberg Terminal. O interesse empresarial está em conectar perguntas a informações, documentos e fluxos de análise com fontes verificáveis. A NEODY já examinou esse caso na reportagem Bloomberg libera ASKB: o que muda na pesquisa financeira com IA.

O The Information lançou o AI Inflection Index, um produto de pesquisa construído sobre sua cobertura original. Segundo a própria publicação, a base inicial reuniu 9.519 artigos, newsletters e briefings, organizados em temas e conceitos para identificar quando determinados assuntos começaram a ganhar importância.

A Semafor apresentou o Semafor Intelligence e descreveu um método para examinar 4.900 afirmações de mais de 300 participantes de seu evento World Economy, vinculando cada afirmação ao trecho de origem. O objetivo é localizar convergências, divergências e sinais relevantes em material que já havia sido produzido.

Os três modelos são diferentes, mas apontam para uma mesma direção: não basta acumular informação; é preciso conseguir consultá-la, compará-la e verificar sua origem.

Como aplicar essa lógica a uma empresa brasileira

Imagine uma empresa com milhares de orçamentos, propostas comerciais, contratos e históricos de atendimento. Hoje, uma parte desse conhecimento pode estar espalhada por planilhas, caixas de e-mail e conversas.

O gestor poderia querer saber: quais clientes deixaram de comprar, quais motivos aparecem nos registros e quais oportunidades merecem contato?

Para que uma IA ajude a responder, os dados precisam estar organizados, o acesso deve ser autorizado e os resultados devem apontar para os registros consultados. Uma resposta convincente, sem evidências, não basta para orientar uma decisão comercial.

Modelo de decisão

Quatro perguntas para sair do uso pontual

  1. Qual problema importa? Escolha uma tarefa ou decisão com impacto em custo, receita, qualidade ou tempo.
  2. Onde está a informação? Identifique dados confiáveis, responsáveis, permissões e informações que ainda faltam.
  3. Como integrar ao processo? Defina quem usa, quem revisa e como o resultado entra no trabalho cotidiano.
  4. O ganho compensa? Compare o resultado com implantação, licenças, treinamento, revisão e manutenção.

Uma empresa que economiza dez minutos em uma tarefa rara pode ter menos retorno do que outra que elimina retrabalho diário em centenas de pedidos. O valor depende do processo e de sua escala.

O que falta descobrir sobre o retorno da IA

A pesquisa da AWS ajuda a medir adoção e maturidade. As pesquisas do Sebrae mostram familiaridade, frequência de uso e prioridades de digitalização. Nenhuma dessas medidas, isoladamente, demonstra o retorno financeiro dos projetos.

A próxima etapa exige perguntas mais específicas: quanto custava executar a tarefa antes? Qual é o custo total depois da implantação? O resultado mantém qualidade? Houve aumento de margem, receita ou satisfação? Qual parcela da mudança pode ser atribuída à tecnologia?

Para aprofundar, veja como saber se o investimento em inteligência artificial está dando resultado e quanto custa a IA.

A IA já entrou nas empresas brasileiras. A transformação começa quando o conhecimento deixa de ficar disperso e passa a sustentar decisões verificáveis.

Sobre a apuração: esta reportagem utiliza levantamentos publicados em 2026 e descrições oficiais de produtos. Os estudos citados têm universos e perguntas diferentes. A análise não apresenta medição própria de buscas nem auditoria independente de retorno financeiro.

Perguntas frequentes

Quantas empresas brasileiras já usam inteligência artificial?

Segundo a pesquisa Strand Partners para a AWS divulgada em setembro de 2026, cerca de 50% das empresas brasileiras utilizam IA. É uma estimativa de pesquisa, não uma contagem censitária.

O que significa usar IA de forma básica?

No estudo AWS/Strand Partners, uso básico significa aplicar IA principalmente a tarefas e ganhos pontuais de eficiência, sem integração mais profunda a produtos, serviços ou modelos de negócio.

Como uma empresa pode avançar no uso da inteligência artificial?

Escolha um processo com problema e indicador definidos, organize as fontes de dados, teste a integração, inclua revisão humana e compare custo e resultado antes de ampliar.

Quais resultados os pequenos empresários esperam da digitalização?

Em pesquisa Sebrae/FGV/Google sobre soluções digitais integradas, aumentar vendas é o principal resultado desejado por 57% dos MEIs e 50% das micro e pequenas empresas. Esses percentuais não medem buscas específicas sobre IA.

Fontes

  1. AWS / Strand Partners — Adoção de IA no Brasil atinge 50% das empresas, 03/09/2026Acesso em
  2. Google / Sebrae / FGV IBRE — Como aumentar a visibilidade dos pequenos negócios na era da IA, maio/2026Acesso em
  3. Sebrae — Pequenos negócios focam em vendas com ferramentas digitais, 24/06/2026Acesso em
  4. Sebrae — Pequenos negócios abraçam a inteligência artificial, 22/01/2026Acesso em
  5. The Information — AI Inflection Index, página oficial do produtoAcesso em
  6. The Information — The AI Inflection Index's Early Signals, 28/09/2026Acesso em
  7. Semafor — Semafor World Economy 2026 e Semafor IntelligenceAcesso em
  8. Bloomberg Professional — ASKB, página oficialAcesso em

Sobre o autor

Mestre em Gestão da Economia Criativa, Estratégia e Inovação pela ESPM. Atua há mais de 15 anos em estratégia, marketing, vendas e experiência do cliente. Como consultor do Sebrae, acumula mais de 300 empresas diagnosticadas e atendidas. Na NEODY, escreve sobre inteligência artificial, economia digital, estratégia e tomada de decisão.