Inteligência ArtificialReportagem documental

Quantas empresas brasileiras usam IA? O que os dados mostram por porte

De 15% nas pequenas a 50% nas grandes, o levantamento do Cetic.br mostra por que o percentual nacional precisa vir acompanhado do universo e da pergunta feita.

A inteligência artificial está presente em empresas de diferentes tamanhos, mas o número usado para descrever essa presença depende de quem foi pesquisado. A TIC Empresas 2025, do Cetic.br, mostra diferenças por porte que ajudam a compreender essa adoção.

O levantamento ajuda a dimensionar diferenças. Para um gestor, sua utilidade aumenta quando o percentual vem acompanhado de uma explicação: qual empresa entrou na pesquisa, o que contou como uso e que decisão o dado pode orientar.

O que significa o percentual de 17%

A divulgação do Cetic.br informa avanço em relação aos 13% de 2024. Foram entrevistadas 4.174 empresas entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026. O período da coleta e o ano de referência precisam permanecer junto ao número: o resultado não representa uma medição feita em outubro de 2026.

O relatório metodológico define empresas com dez ou mais pessoas ocupadas, de setores específicos da atividade econômica. A classificação considera pessoas ocupadas, uma medida que não se resume a empregados com carteira assinada. Negócios com menos de dez pessoas ficam fora desse universo.

A tabela H9 acrescenta uma condição relevante: o indicador de IA foi coletado entre empresas com especialistas, área ou departamento de TI e divulgado pelo total de empresas. Por isso, a medida não equivale a perguntar a todo trabalhador brasileiro se já utilizou um assistente.

Esse detalhe muda a interpretação de frases como “a maioria das empresas ainda não usa IA”. É preciso conhecer a definição de empresa e de utilização adotada no levantamento antes de ampliar a conclusão.

NEODY

TIC Empresas 2025

O porte muda a leitura da adoção

10 a 49 pessoas
15%
15%
50 a 249 pessoas
32%
32%
250 pessoas ou mais
50%
50%
Fonte: Cetic.br, tabela H9. Percentuais dos respectivos portes no universo pesquisado. Coleta do indicador entre empresas com especialistas, área ou departamento de TI; divulgação pelo total de empresas. Consulta em 23/10/2026.

Por que o porte muda a interpretação

Os recortes mostram realidades distintas. O grupo de 10 a 49 pessoas ocupadas apresenta proporção de utilização menor que os demais. O dado descreve uma diferença; não demonstra, sozinho, por que ela ocorre.

Empresas maiores podem ter processos, equipes e investimentos diferentes, mas atribuir a distância a uma causa específica exige apuração adicional. Também seria inadequado concluir que toda empresa pequena deve alcançar o padrão das grandes.

Uma empresa pode resolver uma necessidade com uma aplicação simples. Outra pode ter volume suficiente para integrar vários sistemas. O critério de escolha deve considerar a tarefa, o custo e o resultado esperado, em vez de transformar uma posição no levantamento em obrigação de investimento.

Análise NEODY: o recorte mais útil para o empresário é aquele que se aproxima de sua operação. A média ajuda a entender o cenário, enquanto a decisão precisa ser examinada no processo em que o dinheiro será aplicado.

O que impede a adoção

A tabela H13 investiga obstáculos entre as empresas que não utilizaram IA. No total desse grupo, falta de pessoas capacitadas e desconhecimento de tecnologias adequadas aparecem com 14% cada. Custos percebidos como altos e incompatibilidade com sistemas existentes registram 13% cada.

O recorte das grandes não usuárias apresenta 42% para custos e 36% para capacitação. Os denominadores são os respectivos grupos de não usuárias. As respostas não devem ser somadas como parcelas de uma distribuição exclusiva.

Dificuldade a investigar Pergunta para a empresa
Conhecimento sobre a solução Sabemos qual processo queremos melhorar?
Capacitação Quem consegue utilizar e conferir o resultado?
Custo Conhecemos implantação, operação e manutenção?
Integração A solução precisa acessar quais sistemas?
Dados A informação necessária existe e pode ser utilizada?

A tabela não apresenta uma causa única para a não adoção. Tampouco permite afirmar que a falta de um guia ou de uma comparação paga seja a origem dessas dificuldades. Algumas necessidades exigem pessoas capacitadas, preparação dos dados, mudança de processo ou orçamento.

Essa distinção interessa à contratação. Se o obstáculo for integração, adquirir mais uma licença pode acrescentar uma despesa sem resolver o problema. Se faltar um processo definido, uma demonstração bem executada ainda não informa o que será entregue na rotina.

Como as empresas que usam IA a incorporam

A tabela H9B informa que 80% das empresas usuárias adquiriram software ou sistemas prontos. O resultado mostra a importância das soluções disponíveis no mercado. As formas de obtenção podem coexistir na mesma organização.

Há uma divergência entre a tabela e o comunicado na modalidade de desenvolvimento ou adaptação por fornecedores externos: a H9B registra 54% no total de usuárias e 60% nas grandes; o comunicado cita 60% sem esse recorte. Esta matéria adota os valores da tabela detalhada para essa modalidade.

O dado reforça uma pergunta prática: ao contratar, a empresa está adquirindo uma aplicação pronta, adaptação, integração, infraestrutura ou uma combinação? Esses objetos têm responsabilidades e custos diferentes.

O fornecedor do modelo pode não ser a empresa que implementa o sistema. A solução apresentada ao usuário pode depender de serviços de terceiros. Identificar essas relações ajuda a definir quem presta suporte, quem corrige um problema e quais condições mudam se uma das partes alterar o produto.

Veja o aprofundamento em como comparar fornecedores de IA no Brasil antes de contratar.

Usar IA também significa aplicações diferentes

A tabela H9A classifica tecnologias utilizadas. Entre as usuárias, a automatização de processos e fluxos de trabalho aparece com 68%; geração de linguagem natural, com 30%. São aplicações distintas, que podem ocorrer juntas.

Na tabela H10, de finalidade de uso, marketing ou vendas registra 44% e organização de processos de administração de negócios, 35%, também entre usuárias. Tecnologia utilizada e área de aplicação respondem a perguntas diferentes.

Uma organização pode usar geração de texto no marketing e automatização no atendimento. A presença dessas aplicações não informa, por si só, a qualidade das respostas, a integração com dados próprios ou o retorno financeiro.

Para uma avaliação interna, convém registrar aplicações por processo: o que entra, o que o sistema produz, quem utiliza e quem revisa. Esse inventário torna a discussão mais precisa que a afirmação genérica de que “a empresa já tem IA”.

Por que outra pesquisa fala em 50% das empresas

Em setembro de 2026, a AWS divulgou um levantamento da Strand Partners que estima adoção em 50% das empresas brasileiras. A NEODY examinou esse estudo na reportagem sobre maturidade da IA no Brasil.

Os 50% desse levantamento e os 17% da TIC Empresas não devem ser colocados numa sequência de crescimento. São pesquisas distintas, com desenho, abrangência e definições próprios. A diferença entre os resultados exige leitura metodológica, não uma conta de avanço entre as duas fontes.

O mesmo cuidado vale para comparações internacionais. A OCDE publicou em 2026 um estudo com mais de duas mil pequenas e médias empresas de 12 países e declara que a amostra não é representativa. Ele ajuda a identificar questões de integração, tempo e habilidades, sem produzir uma estimativa brasileira.

Antes de usar uma pesquisa numa apresentação, confira quatro informações: ano de referência, população abrangida, pergunta e base do percentual. Se alguma estiver ausente, a comparação precisa aguardar esclarecimento.

Que decisão esses números ajudam a tomar

Os indicadores orientam onde investigar. A evidência de utilização mostra presença da tecnologia; os recortes revelam diferenças; as barreiras fornecem perguntas para diagnóstico. A avaliação de um investimento depende de informações da própria empresa.

Modelo de decisão

Quatro registros antes do primeiro investimento

  1. Processo: descreva uma tarefa, frequência, responsáveis e problema atual.
  2. Informação: localize dados, fontes, permissões e lacunas.
  3. Qualidade: defina o que será aceito, revisado e devolvido para correção.
  4. Economia: compare o custo anterior com implantação, operação e trabalho de supervisão.

Esse roteiro pode levar a testar uma ferramenta, organizar os dados primeiro ou adiar a contratação. O resultado depende da situação examinada. Uma taxa nacional de adoção não determina qual dessas escolhas será melhor.

Para discutir retorno, registre uma linha de base e acompanhe a mesma unidade de trabalho depois do teste. Horas liberadas podem representar capacidade disponível; economia financeira exige redução ou gasto evitado demonstrável. Mais respostas produzidas não significam automaticamente mais vendas ou margem.

O portal detalha essa diferença em como saber se o investimento em IA está dando resultado e em quanto custa a IA.

A leitura útil para a empresa combina o cenário do mercado com evidências da própria operação. O percentual informa quem utiliza a tecnologia no levantamento. A decisão de investir exige saber qual trabalho precisa melhorar e como esse ganho será verificado.

Sobre a apuração: reportagem documental baseada nas tabelas e na metodologia da TIC Empresas 2025 e em divulgações oficiais de outros estudos. Não houve entrevistas ou pesquisa própria de retorno. Percentuais de fontes diferentes não foram tratados como uma série comparável.

Perguntas frequentes

Percentuais de pesquisas diferentes formam uma série de crescimento?

Antes de comparar, é preciso conferir população pesquisada, definição de uso, pergunta e período. Levantamentos com desenhos distintos não formam automaticamente uma série de evolução.

A proporção de empresas que usam IA comprova retorno financeiro?

Não. Adoção informa utilização da tecnologia. Retorno exige comparar custos, qualidade e resultados atribuíveis à implantação em um período definido.

Fontes

  1. Cetic.br, TIC Empresas 2025, tabela H9Acesso em
  2. Cetic.br, TIC Empresas 2025, tabela H13Acesso em
  3. Cetic.br, TIC Empresas 2025, tabela H9AAcesso em
  4. Cetic.br, TIC Empresas 2025, tabela H9BAcesso em
  5. Cetic.br, TIC Empresas 2025, tabela H10Acesso em
  6. Cetic.br, Relatório Metodológico TIC Empresas 2025Acesso em
  7. Cetic.br, divulgação dos resultados da TIC Empresas 2025Acesso em
  8. AWS e Strand Partners, divulgação do estudo brasileiro de 2026Acesso em
  9. OCDE, Empowering SMEs in the age of AI, 2026Acesso em

Sobre o autor

Mestre em Gestão da Economia Criativa, Estratégia e Inovação pela ESPM. Atua há mais de 15 anos em estratégia, marketing, vendas e experiência do cliente. Como consultor do Sebrae, acumula mais de 300 empresas diagnosticadas e atendidas. Na NEODY, escreve sobre inteligência artificial, economia digital, estratégia e tomada de decisão.