Dois movimentos mostram para onde vai o mercado de dados financeiros. Em outubro de 2026, a Bloomberg colocou em disponibilidade geral o ASKB, uma interface de pesquisa por conversa dentro do Terminal. A LSEG, dona da Bolsa de Londres, vem construindo presença no Brasil desde 2024, quando passou a distribuir dados de empresas de capital fechado. Hoje fornece a tecnologia que sustenta a A5X, a nova bolsa de derivativos, e em setembro de 2026 teve o presidente, David Schwimmer, em São Paulo para oferecer a bolsa londrina a empresas brasileiras.
Os dois movimentos têm o mesmo alvo: quem paga caro por informação para decidir rápido. A maioria das empresas brasileiras não está nesse grupo. Para elas, a pergunta útil é outra: quando um dado pago muda a decisão a ponto de justificar o preço?
Quem vende os dados que o mercado brasileiro usa?
Três tipos de fornecedor abastecem bancos, gestoras, tesourarias e áreas de estratégia no Brasil.
Terminais globais. Bloomberg e LSEG concentram cotações, notícias, dados de empresas, índices e ferramentas de análise. A LSEG herdou esse negócio ao comprar a Refinitiv, antiga divisão de dados da Thomson Reuters. Por um contrato de longo prazo, a Reuters fornece o noticiário que a LSEG distribui em seus terminais, e as duas empresas ampliaram essa parceria em janeiro de 2023.
Bolsas e reguladores. B3, CVM e Banco Central disponibilizam conjuntos relevantes de informações de mercado: cotações, demonstrações de companhias abertas, juros, câmbio e crédito. Os terminais acrescentam cobertura, tratamento, histórico, ferramentas e licenças.
Bases especializadas. Empresas que compilam cadastros, balanços publicados e sinais de mercado sobre companhias que não estão na bolsa. É aqui que entra a parceria da LSEG com a Klooks.
dado observado
Em 2024, a Klooks, empresa de inteligência de mercado sediada em Porto Alegre, fechou contrato para fornecer às plataformas da LSEG dados atualizados de até 25 mil empresas brasileiras de capital fechado por ano. O alvo são investidores, gestores de fundos e profissionais que avaliam aquisições e investimentos diretos.
O número importa porque, na época da parceria, a B3 tinha pouco mais de 400 empresas listadas. Quem compra ou financia empresa no Brasil lida, na maior parte do tempo, com companhias que não publicam balanço na CVM.
O que a Bloomberg e a LSEG mudaram recentemente?
Segundo a Bloomberg, o comunicado de 15 de outubro anunciou a disponibilidade geral do ASKB. O cliente pode incluir na pesquisa suas próprias conversas do Instant Bloomberg, listas de ativos e arquivos do Bloomberg Drive, com referência ao trecho usado em cada resposta. A NEODY detalhou o lançamento em Bloomberg libera ASKB: o que muda na pesquisa financeira com IA.
Segundo comunicados e reportagens sobre a LSEG, a LSEG anunciou em dezembro de 2025 que usuários do ChatGPT com credenciais da empresa passariam a acessar dados de mercado e notícias do Workspace dentro do aplicativo. No Brasil, a empresa fornece à A5X o motor de negociação, a gestão de risco pré-negociação, a supervisão de mercado e o sistema de compensação. A A5X revisou o cronograma em julho de 2026 e mira as primeiras negociações no início de 2027.
Os dois fornecedores vêm incorporando interfaces de conversa aos seus produtos. A proposta é reduzir o tempo de pesquisa, enquanto cobertura, qualidade, atualização e direitos de uso continuam determinando o valor da assinatura.
O que os dados públicos já resolvem?
O Brasil tem fontes abertas fortes para quem sabe onde procurar:
- CVM. O Portal de Dados Abertos publica as Demonstrações Financeiras Padronizadas das companhias abertas, sob licença aberta.
- Banco Central. O portal de dados abertos oferece câmbio, Selic, operações de crédito, estatísticas de Pix e endividamento das famílias, com acesso por API e arquivos.
- Receita Federal. A base aberta do CNPJ permite mapear empresas por atividade, porte, localização e data de abertura.
- B3. Cotações, índices e comunicados de companhias listadas.
ANÁLISE NEODY. Para uma pequena ou média empresa, essas fontes cobrem as decisões mais frequentes: acompanhar juros antes de tomar crédito, medir câmbio antes de importar, dimensionar concorrência em uma cidade, olhar o balanço de um grande cliente listado antes de conceder prazo. O custo é de tempo, não de licença: alguém precisa baixar, limpar e cruzar os arquivos.
Onde o dado público falha?
ANÁLISE NEODY. Em quatro situações o dado aberto deixa de bastar:
- Velocidade. Séries públicas saem com defasagem. Quem opera câmbio, juros ou ações no mesmo dia precisa de cotação em tempo real.
- Empresas fechadas. O CNPJ diz quem existe, não quanto fatura nem como paga. Avaliar fornecedor, cliente ou alvo de aquisição fechado exige base tratada.
- Histórico padronizado. Comparar dez anos de balanços de empresas de setores diferentes, com ajustes contábeis, é trabalho de semanas quando feito à mão.
- Direito de uso. Publicar, revender ou embutir o dado em produto exige licença. Dado público tem suas próprias regras, e dado de terminal tem contrato de redistribuição.
Modelo de decisão
Pagar ou não pagar por dado profissional
- Frequência da decisão. Diária ou intradiária favorece dado pago. Mensal ou trimestral costuma ser atendida pelo público.
- Cobertura. Se a decisão envolve empresas fechadas ou estrangeiras, o dado público tende a ser insuficiente.
- Custo do erro. Quanto custa decidir com informação atrasada ou incompleta? Se o erro custa mais que a licença, o dado pago entra na conta.
- Capacidade interna. Sem alguém para tratar arquivos públicos, o custo escondido do dado gratuito são as horas de análise.
- Uso posterior. Se o dado vai para relatório de cliente, produto ou publicação, verifique antes o direito de redistribuição.
Quanto o dado pago precisa economizar para se pagar?
Os fornecedores não publicam preço de terminal. A conta abaixo mostra como montar a comparação com a proposta que a empresa receber.
Exemplo calculado
Preço máximo aceitável de uma assinatura de dados
Valores ilustrativos, construídos para demonstrar o cálculo.
Premissas hipotéticas: um analista com custo total de R$ 120 por hora gasta 30 horas por mês coletando e limpando dados públicos. Com uma base tratada, esse tempo cai para 8 horas.
- Horas economizadas por mês: 30 − 8 = 22 horas
- Valor do tempo economizado: 22 × R$ 120 = R$ 2.640 por mês
- Valor anual: R$ 2.640 × 12 = R$ 31.680
Se a assinatura custar menos de R$ 31.680 por ano e o dado tiver a mesma qualidade, ela se paga apenas pelo tempo. Se custar mais, precisa justificar a diferença por outro ganho: decisão mais rápida, cobertura de empresas fechadas ou erro evitado.
A conta tem um limite: horas economizadas só viram dinheiro se o analista usar o tempo em trabalho que gera receita ou evita perda. Para aprofundar o raciocínio, veja quanto a IA precisa economizar para se pagar, que usa a mesma lógica para ferramentas de inteligência artificial.
O que perguntar ao fornecedor antes de assinar?
- Quais empresas e períodos a base cobre no Brasil, e com que defasagem?
- Os dados de empresas fechadas vêm de qual origem e com que frequência são revistos?
- O contrato permite usar o dado em relatórios para clientes ou em produtos próprios?
- Quantos usuários estão incluídos e quanto custa cada acesso adicional?
- Existe acesso por API para integrar ao sistema da empresa, e com qual custo?
- Como é o encerramento do contrato e o que acontece com os dados já baixados?
Perguntas para levar à reunião
- Qual decisão desta área mudaria se tivéssemos o dado mais cedo ou mais completo?
- Quantas horas por mês a equipe gasta montando dados que já existem tratados no mercado?
- Precisamos de dado de empresas fechadas para crédito, compras ou aquisições?
- O dado que usamos hoje pode ser publicado ou repassado a clientes?
Sobre a apuração: reportagem documental baseada em comunicados da Bloomberg, reportagens sobre a LSEG, a Klooks e a A5X e nos portais oficiais da CVM, do Banco Central e da Receita Federal.





