O neodímio, chamado neodymium em inglês, ajuda a explicar por que uma área do litoral baiano entrou nos planos de uma companhia internacional de minerais críticos. Esse elemento integra a composição de ímãs utilizados em motores elétricos e outros equipamentos que precisam combinar potência, eficiência e dimensões reduzidas, conforme relatório do Departamento de Energia dos Estados Unidos.
A Energy Fuels pretende obter parte dessa matéria-prima no Brasil. Em comunicado de maio de 2026, a empresa estimou que o Projeto Bahia poderia fornecer entre 3 mil e 5 mil toneladas de monazita por ano, no longo prazo, para sua unidade White Mesa, em Utah, nos Estados Unidos. O volume é uma projeção empresarial, não uma produção já estabelecida.
O empreendimento também foi associado a dúvidas sobre a correspondência entre as substâncias declaradas nos processos minerários e os objetivos divulgados pela empresa, além de preocupações sobre possíveis efeitos da mineração na região. Os questionamentos foram apresentados em reportagem de O Globo publicada em 10 de outubro. Essas questões dependem de esclarecimentos documentais, estudos ambientais e das autorizações dos órgãos competentes.
Por que o neodímio interessa à tecnologia
O neodímio faz parte do grupo das terras raras, formado por 17 elementos químicos. Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente escassos na crosta terrestre. A dificuldade está em encontrar concentrações economicamente aproveitáveis e separar materiais com características químicas semelhantes, como explica a Agência Senado.
Uma das principais aplicações do neodímio está nos ímãs de neodímio, ferro e boro, conhecidos pela sigla NdFeB. Eles permitem reduzir o tamanho e o peso de determinados componentes ou melhorar seu desempenho.
Outros elementos complementam essa composição:
| Elemento | Papel em determinados ímãs de alto desempenho |
|---|---|
| Neodímio (Nd) | Integra a composição magnética dos ímãs NdFeB. |
| Praseodímio (Pr) | Pode compor a liga junto ao neodímio. |
| Disprósio (Dy) | Ajuda a preservar as propriedades magnéticas em temperaturas elevadas. |
| Térbio (Tb) | Pode aumentar a resistência à perda de magnetização sob calor. |
A composição varia conforme o uso e os requisitos do equipamento. Esses materiais são empregados, por exemplo, em motores de veículos elétricos e em geradores de determinadas turbinas eólicas. As aplicações e funções dos elementos são descritas no relatório técnico do Departamento de Energia dos EUA.
A conexão com a tecnologia passa também pela robótica e por equipamentos industriais e de defesa. No caso dos robôs, os ímãs fazem parte de componentes físicos responsáveis pelo movimento. Essa aplicação deve ser distinguida dos sistemas de software que controlam as máquinas. A própria Energy Fuels inclui robótica, energia, setor automotivo e defesa entre os mercados previstos para seus materiais em seus resultados do segundo trimestre de 2026.
O que a monazita contém
A monazita é um mineral que pode reunir terras raras, urânio e tório. Por isso, seu aproveitamento envolve tanto a recuperação dos elementos de interesse industrial quanto o tratamento dos materiais radioativos associados. A composição precisa ser caracterizada em cada depósito. A INB descreve a monazita como um fosfato associado a esses elementos.
No anúncio de conclusão da aquisição do Projeto Bahia, em fevereiro de 2023, a Energy Fuels informou que pretendia enviar concentrado de monazita para processamento em White Mesa. A unidade recuperaria o urânio e produziria materiais de terras raras destinados às etapas seguintes da cadeia industrial. Segundo a companhia, o urânio recuperado seria utilizado na cadeia de energia nuclear.
Isso significa que a extração do mineral e a fabricação do componente tecnológico são atividades distintas, realizadas em várias etapas.
Da areia mineral ao ímã
A Agência Internacional de Energia descreve uma cadeia que inclui extração, concentração mineral, processamento químico, separação dos elementos, produção de metais e ligas e fabricação dos ímãs.
A separação é uma etapa especialmente exigente: transforma uma mistura de terras raras em produtos individualizados. Depois, os óxidos precisam ser convertidos em metais e materiais adequados à fabricação industrial. Ter o depósito mineral não equivale a possuir toda essa capacidade produtiva.
O planejamento do Projeto Bahia prevê conectar uma fonte brasileira de matéria-prima à estrutura de processamento da Energy Fuels nos Estados Unidos. Nas fontes consultadas, não foi identificada uma previsão de fabricação de ímãs no próprio empreendimento baiano.
Por que o Brasil entrou nessa disputa
O USGS, serviço geológico dos Estados Unidos, registra aproximadamente 21 milhões de toneladas de reservas brasileiras de terras raras em seu levantamento de 2026. Esse número corresponde ao conjunto desses elementos, não apenas ao neodímio.
O interesse internacional ocorre em uma cadeia bastante concentrada. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2024 a China respondeu por:
- 60% da extração mundial das terras raras usadas em ímãs;
- 91% da produção refinada desses elementos;
- 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados.
Os percentuais têm recortes específicos e não representam indistintamente todos os usos das 17 terras raras. Essa concentração ajuda a explicar os investimentos em novas fontes de abastecimento e processamento fora da China.
No Brasil, o debate envolve a capacidade de ampliar a participação nas etapas industriais, além da produção mineral. A Agência Senado identifica a separação química e o desenvolvimento tecnológico entre os desafios dessa expansão.
O marco das terras raras do governo
O Brasil passou a contar com a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) em setembro de 2026. Segundo o Ministério da Fazenda, a Lei nº 15.506/2026 foi sancionada em 16 de setembro e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE). O Decreto nº 13.118/2026 definiu a estrutura e o funcionamento do conselho.
A política tem entre suas diretrizes ampliar a pesquisa, o beneficiamento, a transformação e a industrialização no país. A lei autoriza a participação da União em até R$ 2 bilhões no Fundo Garantidor da Atividade Mineral, condicionada a ato específico e à disponibilidade orçamentária e financeira. Também prevê créditos fiscais de até R$ 1 bilhão por ano, entre 2030 e 2034, para projetos habilitados.
A existência da política não significa que todos os instrumentos estejam imediatamente disponíveis nem que um empreendimento específico esteja autorizado. O MDIC informa que a lei preserva as competências regulatórias, fiscalizatórias e de outorga da Agência Nacional de Mineração.
Na prática, o marco nacional busca estimular a agregação de valor, enquanto cada empreendimento continua dependendo das autorizações aplicáveis, dos estudos necessários e da viabilidade econômica. Política industrial, direito minerário e licenciamento ambiental são dimensões distintas da implantação de um projeto.
O que ainda precisa ser esclarecido na Bahia
Segundo a reportagem de O Globo, o empreendimento reúne 19 processos minerários em Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça e Prado. As substâncias declaradas nesses processos incluem titânio, ilmenita e cassiterita, enquanto os comunicados internacionais da empresa destacam o interesse pela monazita e pelo urânio.

O jornal informa que o Centro de Estudos e Conservação da Natureza (Cecna) levou questionamentos ao Ministério Público Federal. O procedimento foi arquivado em setembro porque o empreendimento ainda estava em fase preliminar de autorizações e licenças, com possibilidade de nova atuação diante de eventuais irregularidades.
Também segundo a reportagem, o Inema informou que concedeu autorização para pesquisa mineral, mas não Licença Prévia para exploração de terras raras em areia. Procurada pelo jornal, a Energy Fuels afirmou que realizará os estudos ambientais e cumprirá a legislação. Essas informações descrevem o estágio relatado em 10 de outubro de 2026; pesquisa autorizada não deve ser confundida com extração iniciada.
A região abriga áreas protegidas. O ICMBio registra a Reserva Extrativista de Cassurubá como uma unidade de conservação do bioma marinho costeiro. Essa informação, isoladamente, não comprova sobreposição entre a reserva e as áreas do projeto, que depende de análise geográfica específica.
O acompanhamento do Projeto Bahia passa, portanto, pela divulgação dos estudos minerais e ambientais, pelo esclarecimento das substâncias a serem aproveitadas e pela definição das autorizações necessárias. São essas informações que permitirão avaliar a viabilidade do empreendimento e sua participação na cadeia tecnológica das terras raras.
O Brasil tem minério e busca ampliar sua participação industrial
O Projeto Bahia está mais próximo de uma possibilidade de fornecimento de matéria-prima do que de uma operação industrial consolidada. A Energy Fuels ainda precisa avançar nos estudos, nas autorizações e no licenciamento, enquanto permanecem questionamentos sobre os minerais abrangidos pelos processos e sobre os possíveis impactos da atividade na costa baiana.
No plano nacional, a política sancionada em setembro estabeleceu uma estrutura para estimular o setor. Sua implementação e os resultados dos investimentos precisam ser acompanhados separadamente da existência da lei.
Exportar monazita ou concentrados pode inserir o país na cadeia global, mas não garante a instalação das etapas tecnológicas no Brasil. O desenvolvimento industrial envolve pesquisa, capacidade de separação química, produção de metais e ligas, fabricação de ímãs e atendimento aos requisitos ambientais de cada atividade.
Assim, o Projeto Bahia pode ser acompanhado pelo volume de minério previsto, pelo destino do material, pelas condições ambientais da operação e pelas etapas industriais que serão realizadas em cada país. Esses critérios ajudam a distinguir potencial mineral, produção efetiva e participação brasileira na fabricação de tecnologia.
Leia também: Neodímio e sua relação com a tecnologia e Terras raras e suas aplicações.
Texto elaborado com base em documentos públicos da Energy Fuels e em fontes técnicas e institucionais. As informações sobre processos minerários, autorizações e questionamentos locais são atribuídas à reportagem de Lucas Altino, publicada por O Globo em 10 de outubro de 2026. Os comunicados empresariais foram utilizados como fonte dos planos e estimativas da companhia.





